sexta-feira, 18 de abril de 2014

Humor a qualquer custo: preconceito ainda tem graça?





Não é de hoje que venho reparado a quantidade de programas humorísticos na televisão, mas o que vem me chamado a atenção é um elemento fundamental que tem faltado nos roteiros dessas atrações: o humor. Dentre os maiores ingredientes do humor brasileiro, o uso de estereótipos é talvez a principal matéria-prima destas atrações. Há pelo menos um programa deste gênero em todos os canais brasileiros, mas isso não quer dizer que o conteúdo seja variado, muito pelo contrário, a maioria explora com exaustão as piadas carregadas de preconceito e ignorância.
Paulo Silvino interpreta o porteiro Severino e o bordão "Isso é uma bichona"
Em um país que detém as maiores taxas de estupro, não dá para aceitar que alguém diga que “a mulher feia que é estuprada, deveria agradecer ao violentador” como se fosse engraçado, pois, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil.
Programa "A Praça É Nossa" com Carlos Alberto de Nóbrega

Há uma espécie de banalização do humor e de repente tudo aquilo que não deveria aparecer na mídia, resolve emergir. Como se não bastasse a "coisificação" da mulher nos programas de humor, outros segmentos da sociedade também sofrem com as sátiras; carregadas de preconceito linguístico-social, eles ridicularizam os menos favorecidos; tal como são capazes de escancarar o machismo, racismo e a xenofobia. Isso sem mencionar nomes, é “humorista” dizendo que comeria a mãe grávida e o bebê; apresentador de talk show tirando sarro da maior doadora de leite materno no Brasil, comparando-a com uma vaca leiteira em rede nacional; é cantora sendo vítima de lipofobia (discriminação contra pessoas acima do peso); é o homossexual sendo estereotipado e ridicularizado em praticamente todos os programas de “humor”; e também a utilização medieval de anões durante tais atrações, as quais procuram torná-los abominações da sociedade. Tanto que já me questionei se estava na Idade Média ou não, pois é inconcebível que em pleno século XXI, ainda usem anões como bobos da corte.

Disputa entre anões no Programa Pânico na Band
Agem como se fosse normal humilhar um indivíduo para que as pessoas deem risada disso, o pior disso tudo é saber que há quem ache isso tudo engraçado, como alguém pode rir do ridículo? Sinto falta das piadas bem feitas, do humor inteligente e despretensioso. Talvez seja por isso que a Tatá Wernerk, Dani Calabresa e Marcelo Adnet tenham feito tanto sucesso na antiga MTV, pois deram um novo frescor aos humorísticos.


Tatá Werneck interpretando a atrapalhada Roxanne no extinto Comédia MTV
A proposta de Tatá Werneck deu tão certo que a Rede Globo a contratou para interpretar a atrapalhada Valdirene na última novela das 21 horas, Amor à Vida, do autor Walcyr Carrasco. Nela, a atriz pode mostrar que a fórmula do humor é simples e não precisa de muito para que o público dê risada. Valdirene fez tanto sucesso com o público que ganhou espaço na trama, além de torná-la uma das maiores revelações do ano passado.